terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Contrabando de Unhas Postiças

- Corre!

A polícia vinha atrás de nós. Como não percebera antes que ela era ladra? Como não me dei conta de que alguém pudesse ser tão sagaz? Mesmo sendo da família e sabendo de sua fama, nunca soube de nada até o certo momento em que ela disse "fiz contrabando e a polícia tá atrás de mim". Agora, a polícia estava atrás de nós! Minha ingenuidade não percebeu que agora eu era cúmplice, mas não iria ficar parada para levar tiros.

- Corre, rápido!

Ela ria da situação. Dani era uma pessoa espetacular, alto astral, fazia do momento uma aventura completa, mas que não tinha medo do perigo. Ela parecia não ter medo de nada, na verdade. Se arriscava como se não houvesse o amanhã e ela devia estar certa, afinal não sabemos até quando estaremos vivos. Entramos em uma casa linda, branca com portões baixos e garagem de vidro. Havia um Fiat Siena sedã de cor prata lindo naquela garagem. Nos abaixamos no outro lado do muro. Ela, rindo do outro lado da mureta, esticou o indicador em frente à boca, sinal de silêncio. Eu suava frio. Se nos pegassem, era nosso fim. Ou meu fim, sei lá. Eu sabia que na corrida não ganharia, mas ela corria muito, devia estar acostumada.

Os carros passaram e os policiais foram embora. Ainda ouvíamos a sirene quando ela levantou calmamente, ajeitou o shorts e foi entrando na casa pela garagem.

- Essa casa... é sua? - levantei lentamente indo atrás dela. Tinha um jardim na frente da casa, uma grama bem cortada, arbustos verdes moldados parecendo pufes, alguns anões de jardim, duas palmeiras de jardim que costeavam um caminho de pedras brancas que levava do portão até a porta de entrada e algumas folhagens. A casa podia ser linda, mas me encantou aquela garagem.

- Digamos que é. - ela disse, colocando a chave na fechadura cromada. - Era da minha mãe até ela se mudar com o cara que ela tá namorando. Vem aqui, quero te mostrar uma coisa.

Entramos e logo depois da porta da garagem, havia um tipo de fábrica, não sabia bem explicar o que era aquilo, mas tinha máquinas por todo o lado e estantes com ganchos.

- Este é meu mais novo empreendimento, confecção de unhas postiças decoradas! Que tal?

Ela estava tão feliz com aquilo tudo que nem pude dizer o quão estranho era aquilo tudo.

- Este é o motivo pelo qual a polícia estava me perseguindo.

Unhas. Este era o motivo pelo qual corri até perder o pâncreas?

- Unhas? - tirei da mente a palavra que mais ecoava no momento.

- Sim. Contrabandeei uma tonelada de unhas postiças de Portugal para abrir meu negócio e os fiscais descobriram, agora estão atrás de mim. Que ridículo, não?

- Sim. Unhas. - repeti, incrédula.

Assim que entendi a situação, ela me mostrou seu estoque de unhas decoradas.

- Serão um sucesso, posso até ver! Olha essa, linda não? E esta aqui, é a que mais adoro...

- Sim, são lindas. - fui passeando por entre as estantes e vi o quanto devia ser trabalhoso. Cada detalhe, cada paisagem, cada ideia! Ela tinha o dom para a coisa e não tinha nada a perder. As estantes eram divididas em tribais, paisagens, flores, animas, abstrato, francesinha, cores cheias e fusão, uma mais linda que a outra.

- Acha que pode dar certo?

- Com certeza! - eu disse. - Nossa, que talento, Dani! Como nunca me contou?

- Ah, fui descobrir a pouco tempo. Quero juntar dinheiro com algo que sou boa e pagar minha dívida com a polícia, assim não preciso andar me escondendo o tempo inteiro.

Fiquei feliz e aliviada por ver que ela queria mudar, queria ser alguém na vida e estava dando o seu melhor para conseguir isso. Depois de tudo que ela passou, depois de tanta falcatrua e fugas, é realmente admirável que ela tenha tido essa atitude e eu a apoio de todo o coração, afinal 10% das vendas são minhas. Fazer o que, cúmplice é cúmplice.

2 comentários:

  1. Haha, uma aventura divertida! Bem como todo sonho deveria ser! Sua escrita é maravilhosa <3

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